Isabel Coutinho | EMBAIXADORA

É possível ser uma mãe sem culpa?

Cada filho nos traz uma história e precisamos reconhecer que sempre doamos o nosso melhor.

Publicado em 13/06/2017

Isabel Coutinho

Isabel Coutinho - Embaixadora

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É possível ser uma mãe sem culpa?

Todas nós já ouvimos mães veteranas dizendo que cada filho, ainda que do mesmo casal, é completamente diferente do outro. Eu achava isso uma grande bobagem, mas é verdade.
Muitos anos depois concluo que isso acontece porque cada filho chega num momento diferente de nossas vidas e nos faz uma “mãe de primeira viagem” sempre. 


Aos 16 anos eu já era mãe. Tive um casamento precoce e minha filha mais velha me ensinou muito sobre limites. Eu ainda não sabia sobre tudo o que estava envolvido na maternidade então a criei como uma boneca viva. Ainda assim, eram muitos medos e principalmente uma cobrança gigante. Eu tinha que mostrar que podia. Coisa de jovem muito jovem. 


Três anos depois mais um filho. Eu tinha 19 e com esse filho aprendi a delegar. Precisava voltar aos estudos porque da primeira filha fui mãe em tempo integral. Não foi o ideal para nós duas. Apesar de um pouco mais velha na época, consegui fazê-los compreender que eu era a mãe, mas crescemos juntos, só que literalmente. Naquela época ainda existiam babás e eu tinha uma excelente que era meio mãe de nós três.


Me culpei algumas décadas por isso, mas era o que eu podia oferecer de melhor. Foi difícil aceitar que eu não tinha condições emocionais de cuidar de duas crianças e consegui alguém experiente para ajudar. Auxílio, não terceirização. Acabei me perdoando. Mais para frente dois abortos bem no comecinho da gravidez. Sensação de total impotência. O aprendizado seguiu. 


Eu sentia que seria mãe mais madura e fui. Novo casamento e aos 39 anos mais um bebê. Me achava a “sabe tudo”. E esse cara veio pra me preparar para a guerra. Meu terceiro filho nasceu com uma síndrome rara e viveu pouco em dias contados, mas eternamente em intensidade. 


A gente nem quer pensar que um filho pode nascer com qualquer problema, mas acontece. E você vive tudo o que há de pior, mas nada tem apenas um lado. A gente também conhece o maior amor que existe. 


Fiquei me perguntando se deveria estar aqui, temia assustar vocês. No entanto, refleti sobre preconceito, algo que abominamos. E ele nasce sempre quando não queremos olhar para algumas realidades. 


Eu amo conhecer novas pessoas e desejo, de coração que você jamais precise conversar comigo sobre um filho que nasceu diferente dos seus sonhos. Mas se você foi escolhida para viver isso garanto que tenho alguns milhares de histórias de amor pra compartilhar. A minha inclusive que me fez constatar que perfeito é tudo aquilo que a gente ama.

 

Marília Castelo Branco é mãe de 3 filhos, avó de duas meninas. Fundou a Associação Síndrome do Amor, um grande grupo de apoio às famílias de crianças com síndromes genéticas, que há 10 anos incentiva um novo olhar.

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Sobre o colunista

Isabel Coutinho

Psicóloga formada pela USP, já trabalhou como publicitária e pesquisadora de mercado. É mãe de dois filhos e autora do livro "es;Mãe em construção Reflexões, angústias e desafios"es; (Dash Editora). Atualmente, se dedica a estudar e escrever sobre os desafios de ser mãe nos dias de hoje.

"es;Meu desejo é que, em nossa sociedade, se abra espaço para uma maternidade menos idealizada, com menos cobranças, mais compreensão e mais humanidade. Uma maternidade onde os erros, imperfeições, dificuldades, frustrações e desafios possam coexistir com os sentimentos de amor e felicidade"es;.